Não era a primeira vez dessa prova, tão árdua. Primeiro temos a parte intelectual que estudei com afinco, mesmo dentro da noite cerrada sob luz de cadeeiro, ou sob tempestade de vento e chuva fria, encostado em uma varanda qualquer enquanto em minha ronda, durante a madrugada á pé, me abrigava para me proteger, pois mesmo mu capote já estava encharcado e não poderíamos abandonar nosso turno sob hipótese alguma. Aqui não há direitos, apenas ordens que devem ser cumpridas custe o que custar, das mais simplórias, ás mais difíceis, das mais lógicas ás mais insanas, no final ordens são ordens e basta...Eu que cumpri tudo certo, que mostrei lealdade e respeito aqueles que me davam as ordens e muitas vezes homens indignos de levarem os estandartes da tropa, e muito menos comanda-la, pensei que podia comanda-la. Tinha raça, tinha folego, vontade, e gostava do que fazia e porque o fazia...Então por oito longos anos sempre me preparei, por oito longos anos eu treinei e estudei e a cada ano, era submetido á prova, ao sacrifício, á dor. ..E mesmo assim não me chamavam, não me classificavam...A cada ano era o mesmo homem que apreciava os testes era o mesmo homem, que dentre tantos desconhecidos me via sempre ali, todo os anos tentando, jamais desistindo.
Esse homem morava perto de minha tropa e via, quando saía com eles em treinamento, mantendo uma qualidade da equipe acima do normal...Foi esse homem que viu e festejou com largo sorriso, a cada troféu de combate que trazíamos, quando vencíamos nossos adversários. Esse homem viu quando também resignados, marchando lentamente trazíamos nosso companheiros sobre nossos escudos, ele viu quando nós os enterrávamos.
Ele estava lá como líder de uma grande divisão, e por isso a todos o ano ele fazia testes para pessoas que, como eu acreditavam no que faziam, achando que era o mais certo, o mais correto a ser feito, naquelas situações extremas. Mas era um homem que nunca combateu, que nunca suou, que nunca sofreu, ganhou ou perdeu.
Agora naquele meu último momento, eu estava arriscando tudo, se fosse preciso até minha vida para conseguir o que eu almejei. E em um dos malditos testes , que já me eram bem familiares eu caí na exaustão, estatelado no chão, perdido dentro daquela minha agonia final: Deus, por que não consigo? Estou me esforçando, fazendo a minha parte, então por que eu não consigo, droga, sei que sou bom e que estou no meu melhor do que jamais fui...Me responde, Deus!
Com braços, ombro e joelho sangrando me reergo daquele pó todo e com um urro de animal ferido eu me atiro á frente , de meus competidores. Quando passei pelo lado de um deles , foi meu sangue de meus ferimentos que mancharam seu alvo uniforme...Um uniforme de um hospitaleiro que nunca passou uma noite em claro, ou sob sol cerrado denso, quente....Homem e uniforme ficaram resguardados por muros altos e teto arejado...E mesmo bem protegidos, bem criados eu o deixo para trás, pois estou decidido, aquele era o meu dia, finalmente.
Quando caí na linha de chegada meus companheiros me erguem e me levantam, orgulhosos de meu feito, pois sempre me acompanharam nessa minha labuta pessoal, afinal eramos irmãos de arma, e onde um irmão deve estar senão ao lado de seu outro irmão?
Fui então medicado, e sai para esperar os resultados...Aquilo foi um tempo de agonia interminável.
A maioria desses líderes de divisões vinham, de famílias com nomes e renomes de nossos vilarejos, pois precisava de dedicação total para os estudos, homens pobres jamais poderiam ter filhos nessas lideranças, pois não poderiam pagar tamanho sustento. Contudo eu consegui chegar muito longe, era filho de pai Mouro, que vivia e morreria da força exclusiva de seus braços, sapando estradas dos nobres e dos povoados, ganhando parcas quantias por trabalhos herculanos, que diziam um homem só não ser capaz de realiza-lo.Sim, até o comando de minha equipe fui a exceção, agora meus objetivos se haviam voltado para o comando de uma divisão. Tinha certeza de que podia e me preparei para isso.
No mural estava em trigésimo segundo,de quarenta posições, nada mal mesmo para um cavaleiro do povo...Então quando chamaram, os nomes fui deixado de fora do portão que dava acesso ao castelo das divisões. Estava perplexo...O que fiz de errado? Novamente falhei...Talvez.
- Cavaleiro, vem aqui! Acho que devo ao menos, para você uma explicação, em reconhecimento aos teus atos, homem!
Me aproximei, baixei meu escuto e em posição de respeito, comecei a ouvi-lo, dentro de meu silencio.
- Sabe, o destino me fez acompanhar sua história, desde o princípio...Vi quando você chegou do vilarejo mais pobre, quando entrou, como reles escudeiro. Segui se esforço, sua luta...Vi quando aos poucos e por vontade invejável, se distanciou dos demais indo a comandante de equipe rapidamente.Vi quantos troféus você trouxe a sua companhia, vi quantos homens você nela enterrou. Também percebi que foste em cada empreitada e voltaste vivo, enterrando inclusive seus melhores amigos.
Sim percebi quem você era, e o que queria, por isso mesmo eu não o permiti, portante não culpe ao se Deus, culpe a mim, pois sou eu que tenho o direito da escolha...
Se me perguntares por que, te direi, o que sempre dizem: nenhum homem que vem a comando de divisão vem de vilarejos pobres, com pais sem nome ou renome...Se tiveste nascido em outro lugar, apenas por menos de um terço do que fizeste, já seria um de meus subalternos de divisão, e me daria muito orgulho de te-lo ao meu lado...Mas pensa comigo cavaleiro , como eu tendo de manter o status de comando, poderia aceitar um homem de vilarejo pobre, e ainda por cima com sangue de mouro nas veias? Jamais!!!
Por esses longos anos, de sua insana procura, achei que você desistiria no caminho de tanto espinhos que lá coloquiei propositalmente, mas você permaneceu. Por isso te admiro, e confesso que você perdendo agora, quem perdeu mais fui eu, pois ha coisas que temos de fazer que jamais nos orgulharemos, mas regras serão sempre regras, mesmo que não estejam escritas nos livros, contudo ficam cravejadas nas entrelinhas destas.
Portanto lhe faço aqui meu juramento, se teu filho ainda quiser ser cavaleiro e por ventura queira uma divisão, e mesmo fora de meu castelo, já longe da profissão, fale comigo e eu darei um jeito de coloca-lo, pois será o filho de um cavaleiro e não de um simples mouro. Adeus!
Aquilo me marcou como ferro quente dentro de minha alma, meus olhos eram um braseiro de ira e dor indescritível.Contudo eu o encarei firmemente, sem medo, ou remorso, mas com pena pois um homem apego ás vaidades, jamais será um homem de verdade e quando o seu dia chegasse de recostar sua cabeça para descanso sempiternal, o que lembraria, ou do que seria lembrado, senão das perversidades cometidas sem justa razão ou necessidade.
Meus irmão para me incentivar batem em seus escudos a cada passo dado, na estrada que meu pai criou...Não importa o que digam essa marca eu tenho orgulho de carregar, pois sua maior obra foi ter me criado, podendo chegar onde cheguei...Essa marca ninguém também pode jamais tomar.
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