Quando você entra em um lugar que qualquer ser humano vive dos restos de outro já é uma situação bem difícil de digerir, então a cena que encontramos, no mínimo emocionava e muito.
Adentro próximo aos depósitos recentes, envolto em panos velhos, dentro de uma caixa de madeira velha, estava o infante encolhido com uma das mãozinhas na boca, chupando o polegar, e a outra segurava o final das costelas procurando parar com certeza a dor de um ferimento que notamos próximo ás costas dele...No momento que chegamos já eram próximos das 10 horas, e mesmo assim havia orvalho, nas campinas adjacentes, dizia para nós que foi um manha muito fria, naquele dia, típico da nossa Serra.
Também ficamos sabendo que a ultima carga de lixo e dejeto deve ter chegado onde pelo início da noite, quando toda a atividade se torna muito perigosa e ninguém se atreve a tralhar naquele local sinistro, que traz animais peçonhentos e selvagens, também em busca de carcaças e restos de comida da cidade distante desse local. Como disse todos sem exceção querem sobreviver nesse mundo de Deus...O bebezinho, estava ainda com o corpinho mole, mesmo que o frio que deu, o que indica que esse ser lutou até o seu último suspiro, contra o frio, os animais ao redor de sua caixa e por final sem escapatória por seu ferimento de material cortante atras das suas costinhas. Só isso lhe dava o direito de viver tanto quanto qualquer vivente que ali dentro daquele local de restos, lixo e dejetos, se encontrava.
Diante de tamanha inocência, perdida, e crueldade que se acometeu, como em um chamado silencioso, de algo invisível, e muito poderoso, senti o vendo minuano, do sul soprar mais forte, que parecia cantar com seu assobio uma cantiga pra que continuasse ninando aquele corpinho que agora poderia ao menos descansar, de uma terrível noite mal dormida.
E era essa mesma cantiga que chamava lentamente, aqueles zumbis em vida, tantos maltrapilhos, abandonados, esquecidos de sua gente, que muitas vezes vinham até comer dos restos nesse local.
Sim, eram eles, de olhos mortos, sem vida, que continuavam a insistir em viver por puro instinto, e diante da miséria e fome esqueceram, a razão, a dignidade, vaidade ou orgulho, eles catam hoje para comer amanha...Esse exército silencioso se arrodeia na frete do local onde estava o corpinho, com dificuldade os vejo um a um, em mortal silêncio se ajoelharem, e lentamente uma oração começa:
- AVE MARIA, CHEIA DE GRAÇA, O SENHOR É CONVOSCO.
BENDITA SOIS VÓS ENTRE AS MULHERES E BENDITO É O FRUTO
Eu escutei e enquanto olhava aquilo vi que muitos haviam se ajoelhado em restos de vidro e porcelana caídos no local, entre os dejetos e mesmo que sangrassem os joelhos, estava em miríades de evocação espiritual, que com certeza não lhes pertencia, mas de alguém, ou algo que tocou aquele solo pestilento e o consagrou, a fim com certeza, de vim buscar a alminha que pouco viveu mas muito batalhou, e por isso mesmo sua graça alcançou....Existe um ditado na Serra que diz:
Foi esse o milagre que vi ali...Um ser que mereceu os céus.
E o milagre continuou, para que ninguém na Serra esquecesse...O pequenino foi encaminhado ao vilarejo mais próximo onde limparam seu corpinho, e o ungiram com óleo...O vestiram com vestes de menino, e o encaminharam a uma capela onde o batizaram de ÂNGELO DE DEUS; durante o seu velório na mesma capelinha muitas crianças vieram, cada uma trazia algo e deixava com ele. Foram flores, margaridinhas do campo, algumas balas doces, uma chupeta, um cavalinho de madeira... Uma toquinha azul clarinha ( vai que no céu tem um pouco de vento né?)
Como a comunidade era pobre, nossa patrulha encaminhou o caixãozinho em ato fúnebre, e o sepultamos em um campo santo, onde todo o vivente em Cristo e Deus pai, tem direito de ficar, e como todo o caminhante, recebeu a benção escrita de nossa companhia, pois foi guerreiro, como nós lutando até o fim:
- YAJA COM DIOS, ÂNGELO DE DEUS!

Nenhum comentário:
Postar um comentário